
Há de fato, muitas formas de se questionar o direito à Liberdade, o direito de ir e vir. Sem dúvidas que há. Porém, vou ser preciso aqui, vou pôr o dedo na (minha) ferida, vou falar do 'serviço militar obrigatório'.
Olavo Bilac - jornalista e poeta brasileiro do séc XIX/XX - com certeza sem ter o que fazer, participou arduamente da campanha em favor deste 'dever' em potencial. A ser aprovado pelas oligarquias da República Velha - mais uma das grandes etapas douradas da história conservadora do país.
O fato foi consumado, chegaram ao consenso de que o Brasil necessitava realmente de reserva militar. O que tinhamos nao garanteria sucesso em uma possível guerra; ou quem sabe, em conflitos reácionários; ou meras manifestações populares por de uma vida mais digna; também nao deixava as autoridades tranquilas em relação às fronteiras brasileiras, que poderiam ser violadas (nem eles mesmos sabiam onde ficavam as tais fronteiras); e outros tantos motivos.
O negócio é que o governo gostou (ou esqueceu), desse novo dever da população masculina brasileira. Que logo ao iniciar uma vida mais independente, se vê obrigado a iniciar o 'processo de seleção' (sorteio) para o tal 'serviço'.
Durante um ano, a difícil tarefa é consumada, e um contingente é cirurgicamente (¬¬) selecionado para dar inicio à essa desgraçada obrigação.
Começamos, no meu caso, com 100 sortudos. Nos primeiros dias recebemos a farda (ou fardo), e demos inicio ao processo de "adestramento" (exatamente assim pronunciado por nossos 'superiores').
Em que se baseia esse adestramento?, simples: imposições (veja bem, imposições. Castigos não, ¬¬).
As imposições são: flexões; às vezes, piadinhas; faxinas; advertências e etc...
Tudo isso foi minucionsamente estudado, por gente competente, pra garantir que ao fim do ano, estes mesmos 100, saiam de lá tinindo, preparadíssimos para enfrentar qualquer tipo de conflito.
Continuamos, servindo a Pátria com o maior orgulho, limpando um lugar esquisito que nunca vimos, recebendo ordens, sem receber nada em troca de um qualquer, mais estranho ainda.
Muitos estudam, outros muitos trabalham, outros fazem os dois, mas é esse mesmo o perfil de pessoas que a âncora quer, esse tipo de problema, nao é problema deles (assim disseram).
Ensaiamos pra formaturas (qualquer celebraçãozinha que junta meia duzia de seres que se intitulam "disciplinados, mas nem sabem o porquê disso), cantamos o Hino Brasileiro, a Canção do exército ("nós somos da pátria guarda, fiéis soldados, por ela amados" - muitos nao sabem nem o que o exército faz..¬¬, outros têm medo, outros estão traumatizados por culpa dele), a Canção do expedicionário, o Hino da cidade e etc...(tudo a mais pura ladainha).
Como se só as manhãs perdidas não fossem suficiente, inventam a guarda, onde ficamos 26 horas diretas, dentro do lugar esquisito (quartel), para o defender de invasores. Trabalhamos, comemos, trabalhamos, tomamos banho, trabalhamos, ficamos de sentinela, e por ultimo, se der tempo, dormimos (se é que dá pra dormir naquelas camas!).
São 9 homens por dia, todos os dias, inclusive finais de semana, feriados e nas férias. Armados até os dentes, com UM porrete, e de quebra, um apito. As ordens são: Se alguém entrar, apita, seus amigos vão se juntar a você, e assim, descem todos, o porrete no invasor (mesmo que ele tenha algum tipo de arma de fogo, arma branca, ou o que for...). Muito Justo.
Mexemos com armas (mosquetões), de 1968, no caso. Mas nao é realmente isso que importa. O indignante, é que não perguntam, nao questionam, se a pessoa, quer mesmo encostar numa arma, se o credo, a ideologia, a religião, ou qualquer coisa a impede que o faça. Apenas jogam na sua mão, o instrumento.
Engolir sapo porém, é o que aprendemos lá, quem se importa com o que voce pensa?, afinal, quem disse que se pensa?, reservista nao raciocina, mas obedece (palavras dos mesmos tais superiores). Pegamos as armas, as baionetas, os ferrolhos e tuco mais. Aprendemos por enquanto, só a montar e desmontar a mesma, uma chatisse, um sofrimento (muita pecinha, muita força e etc...pra monstar e desmontar).
Por enquanto, só isso, passaram-se apenas 2 meses, e o sofrimento continua, a grosso modo, é isso que ocorre, obviamente, cortei muitos episodios dignos de uma pátria amada (rolar, ou chafurdar na lama como preferir, passar frio, tendo agasalho, aprender movimentos repetitivos, fazer exercícios físicos cansativos, bons apenas pra quem gosta, e etc...
O que posso questionar é: Pra que fronteiras?, se o mundo por si só, graças à natureza perfeita, é (originalmente), um bloco só de terra?, se todos os humanos, são uma espécie apenas?, pra quê?
A resposta está mais uma vez, num mundo conservador, dividido em Estados, onde guerras geram lucros, onde minorias necessitam de um espaço para si, para ter domínio. Para oprimir.
O exército como é, ao meu ver, é uma instituição burguesa, criada pra defender os interesses de uma classe privilegiada, faz isso (sempre foi assim), com repressões, violência e demagogia. Garantindo que os mesmos senhores mantenham sua forte influência, e poder sobre um determinado povo, etnia, nação, ou aprisionados dentro de um espaço, sabe-se lá por quem determinado.